terça-feira, 22 de março de 2011

A reportagem

Nilson Lage, em Estrutura da Notícia, diferencia texto da notícia e reportagem. Enquanto o primeiro cuida da cobertura de um fato ou de uma série de fatos, o segundo faz um levantamento de um assunto, conforme ângulo preestabelecido. Para Cremilda Medina, a reportagem amplia uma simples notícia de poucas linhas, aprofundando o fato no espaço e no tempo, e esse aprofundamento de conteúdo informativo se faz numa abordagem estilística.
O Manual de Redação da Folha de São Paulo diz que a reportagem deve “ser iniciada com a informação que mais interessa ao leitor e ao debate público (o lide); deve ainda contextualizar os fatos e expô-los objetiva e criticamente, com exatidão, clareza, concisão, didatismo e uso correto da língua”.
Lide: O primeiro parágrafo do texto jornalístico, quando bem escrito é útil à dinâmica da leitura contemporânea – por ser uma síntese da notícia e da reportagem. Não existe um modelo para sua redação. Nem deve ser escrito de maneira automática, com escrita burocrática.
Se os fatos são urgentes e fortes, eles tendem a impor ao lide um estilo mais direto e descritivo, respondendo às questões principais em torno do acontecimento (modelo funcionalista americano: o quê, quem, quando, como, onde, por que, não necessariamente nesta ordem).
O autor deve ler a própria reportagem e trazer para o início o que desencadeará o restante, se possível, estabelecendo analogias com fatos recentes para enriquecer a introdução.
Um modo prático de descobrir o interesse maior de uma reportagem (pode ser o caso de uma entrevista), cujo lide não esteja naturalmente visível, consiste em contar seu conteúdo a pessoas de sua confiança. Deste modo, poderá descobrir o que mais chamou a atenção delas.

Contextualização e síntese: A diferença fundamental entre uma revista e um jornal está na pouca durabilidade deste e no tempo de leitura a ele dedicado pelas pessoas. Reportagens veiculadas em um jornal tendem a ser superadas ou ampliadas cotidianamente pelas que são publicadas no dia seguinte – fator que não atinge da mesma maneira os artigos, as crônicas e as críticas.
É preciso partir do princípio de que o leitor pode não conhecer, necessariamente, fatos que precederam a notícia que se divulga. Assim, deve se fornecer a ele contextos claros e uma perspectiva histórica recente dos acontecimentos.
O rádio e a televisão acostumam mal o leitor. Este pode ter a impressão de matéria requentada, quando olhar o jornal no dia seguinte. Desta forma, além da importância da informação exclusiva, ganha relevância o tratamento singular dado aos fatos, a sua fundamentação, a solidez da apuração e a boa análise da notícia.
A palavra escrita, ao exigir a reconstrução imaginária, tende a provocar no leitor uma atitude reflexiva. Passa a depender, então, da alta concentração e seletividade de fatos e idéias num espaço reduzido, da vibração estilística, do contraste brusco dos eventos, da força dos argumentos e imagens e do abandono da descrição extensiva e prolongada.
O repórter deve sugerir aos editores o espaço de que precisa para expor o que tem a dizer, sabendo que a vastidão do texto não é sinal de excelência.
“O jornalista tem de ser concentrar na obtenção de um domínio da língua portuguesa, a ponto de ser capaz não apenas de escrever com correção, mas também com precisão vocabular e variedade de recursos estilísticos. A diversidade no uso de vocábulos deve ser regida pela precisão, e não pela retórica. A variedade estilística deve seguir o encadeamento lógico e interessante dos fatos sem submetê-los a modelos pseudoliterários” (Manual da Folha).

Outras analogias
L. F. Veríssimo
A Guerra de palavras e propagandas entre árabes e judeus tem recorrido a outras analogias alem da descabida que fez o José Saramago, comparando Israel aos nazistas. Analogias cortam os ares como balas. A principal justificativa de Sharon e a linha-dura para suas ações é uma analogia com a reação americana aos ataques de 11/9 e ao terrorismo: Israel só estaria fazendo com os palestinos o que os americanos fizeram com o Talibã, e pela mesma razão. A grande contradição americana na crise atual, com o delegado dos Estados Unidos nas Nações Unidas votando a favor da resolução que condena a ocupação israelense enquanto Bush a abençoa, vem da necessidade de endossar esta analogia mesmo com o custo da coerência.
Uma analogia muito ouvida em defesa dos atentados palestinos e da mobilização por um Estado palestino é com o que os próprios judeus fizeram para ter o seu Estado, e que também incluiu atos terroristas. Mas a maioria dos que não dão razão ou atribuem a culpa a um lado só e acham que em vez de analogias deve-se procurar a paz faz a analogia óbvia com outras situações em que, por muito menos, houve intervenção da sempre bem-vinda TDD (Turma do Deixa Disso), da ONU. É a única analogia sensata até agora.
Analogia dolorosa fez o Gilles Lapouge, correspondente do Estadão em Paris, que ontem comparou a situação no Oriente Médio a um câncer que começa a dar sinais de metástases. Não era difícil prever que sinais seriam esses. Já houve ataques a sinagogas na França – não é preciso muito para atiçar o anti-semitismo na França – e a imbecilidade pode se alastrar. Nossa única esperança é que a analogia patológica do Lapouge fique restrita ao mundo das boas metáforas literárias. “Metástase” é a propagação do câncer pelo organismo que ocorre quando o seu foco inicial não tem mais cura. E a palavra que ninguém quer ouvir. Uma cura para a imbecilidade ainda está longe, mas é impensável que o que acontece nos territórios ocupados seja um processo terminal.
Para refletir:
“O essencial, no jornal, é aquilo que coloca no mercado: a notícia”.
Elcias Lustosa

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