quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O Chamado Profético na Política - Carlos Bezerra Jr.

O assunto me mobiliza. Talvez seja o discurso da minha vida. Mas pudera… Identificar meios de expressar os valores do Reino de Deus em nosso cotidiano talvez seja um dos principais desafios da fé cristã. No dia a dia do médico e o sofrimento dos seus pacientes, no da assistente social e sua luta pelos mais pobres, no do advogado e os injustiçados da vida, no do professor e no de tantos outros. Mas, e no cotidiano da política? É possível fazer isso?
Antes de responder a essa pergunta, penso que valha olhar para a aversão à política que se formou em várias igrejas por aí, fruto da eleição de representantes evangélicos que, sem histórico de serviços à comunidade, chegaram à vida pública só pra “quebrar o galho de sua igreja”. É verdade que nós, cristãos, não devemos compactuar com nada que confronte nossos valores e princípios. Mas valer-se da função pública para conseguir privilégios para uma denominação produz efeitos devastadores: há alguns anos, quando alguns dos maiores escândalos de nossa história recente estouraram, lá estavam os parlamentares evangélicos, no meio das denúncias.

Entre todas as explicações plausíveis, o resultado disso é que muitos passaram a pensar que a política é algo sujo, ou, para os mais radicais, a serviço de satanás. Mas na verdade isso é um engano. Imagino que o povo de Deus no deserto também chegou a pensar que aquela aridez era infinita e que a Terra Prometida era uma ilusão qualquer, quando, de fato, ela existia.
É função da política promover a justiça entre todos os cidadãos. E o que é a justiça? É dar a cada um o que é seu, dizia Tomás de Aquino. É justo que um estudante de classe média, que sempre estudou em bons colégios, dispute o vestibular da USP em pé de igualdade com rapaz pobre da periferia que estudou em escolas públicas depredadas? Sem dúvida, não é. Por isso, a política vem discutindo as cotas como forma de compensar a injustiça no acesso à universidade. Você pode discordar delas, mas é pelo menos uma tentativa.
Quando passei a me debruçar sobre a questão da violência sexual contra crianças ou sobre o combate ao trabalho escravo em SP, fui questionado sobre o porquê de me dedicar tão severamente a esses temas. Havia várias respostas na ponta da língua. Chega a ser óbvio lutar para impedir tamanhas barbaridades, mas não pensei duas vezes antes de responder: por causa da injustiça. Imagine construir uma sociedade sobre as marcas do abuso e da exploração? “A injustiça em qualquer parte é uma ameaça à justiça em toda parte”, dizia Martin Luther King, que lutou pela igualdade racial nos Estados Unidos e que, coincidência, vai… Era pastor batista.
Há verdadeiramente uma maneira de atuar de forma profética na política e somos chamados com urgência para isso. A sociedade anseia por soluções onde o debate sobre o futuro é travado, ou seja, na política. Aquecimento global, desmatamento, erradicação da pobreza, meu Deus, são tantas as questões! Que adianta engordarmos espiritualmente dentro de nossas comunidades se os frutos que damos não chegam a quem tem fome? No passado, os profetas de Deus eram aqueles que diagnosticavam o presente e apontavam soluções para o futuro, denunciavam que havia morte na panela, que havia injustiça, que havia crise moral e social. Agora, parece-me que nos esquecemos que profecia não fala de futuro, fala de verdade moral. Ao mesmo tempo em que condena a crise da família, é inovadora na defesa de direitos humanos e no combate à pobreza, por exemplo.
Como cristão, vejo crianças abandonadas para que morram à própria sorte, vejo brasileiros e imigrantes em condições desumanas de trabalho, vejo os direitos humanos desrespeitados. ‘Senhor, não posso ficar de braços cruzados diante disso tudo!’, penso. Em uma sociedade capitalista ao extremo, que elogia a competição, que sacrifica o Planeta em favor do lucro, quem levantará o seu cajado no deserto para lembrar dos idosos, das crianças, da gestante, da viúva, da pessoa com deficiência, do escravizado? Onde está o papel da Igreja como consciência profética?
Continuamos sendo chamados a ser luz e sal da terra. O sal serve não apenas para dar sabor à carne, ele é também usado para impedir que ela apodreça.  Esse, querido leitor, é o compromisso profético na política: ser limite da iniqüidade e fazer brilhar a luz de Cristo o máximo que puder, expressando os valores do Reino e fazendo com que a agenda de nossa cidade, privilegie a grávida sem direitos, a criança, o idoso etc.
Estamos prestes a escolher em quais mãos colocaremos nossa cidade. É momento de eleger aqueles que, como o sal, sejam instrumentos de Deus para impedir o avanço da maldade, da iniqüidade e da corrupção onde quer que estejam. Alguém que seja ficha limpa e que não faça o tipo que se “converte” apenas para o período eleitoral. Alguém cuja caminhada de serviços à sociedade comprove o compromisso com os valores do Reino, e que seja capaz de levantar o candeeiro e ser luz na Câmara Municipal de São Paulo, como fiz por 10 anos, com a graça de Deus.  Que o seu voto represente esses valores. Que às injustiças, desmandos e problemas de São Paulo respondamos com bondade, justiça, sensibilidade e fé. Que possamos, como Igreja, apresentar a essa cidade uma nova alternativa, que seja nossa resposta por uma São Paulo muito melhor.

Carlos Bezerra Jr.
Deputado Estadual - SP
Fonte: Clique aqui

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