segunda-feira, 29 de abril de 2019

A História de Vovô Joaquim


Vô Joaquim é um Preto Velho caridoso, extremamente bondoso e humilde, com sua fala mansa e cheia de ternura, que trabalha em prol da caridade nos Terreiros de Umbanda trazendo sua paz, curando enfermos, trazendo luz nos caminhos escuros, ensinando a humildade a seus filhos e demonstrando o valor da fé.
Vovô Joaquim tem uma grande experiência com ervas, e delas faz seus trabalhos de benzeduras, limpezas, descarregos, desobsessão, curas tanto do corpo físico como do espírito.

Ele tem um modo de trabalho espiritual diferenciado de muitos Pretos Velhos, pois as suas ações são determinadas pelo seu próprio tempo, sendo ele bastante sereno, muitas vezes antes de falar algo ou fazer uma limpeza que seja necessária a um consulente, ele calmamente cachimba, olha a fumaça que se esvai no ar, olha em sua volta, cachimba novamente, sorri, da um longo e vagaroso gole no seu café sem açúcar ou no seu vinho moscatel, para serenamente olhando as palmas das mãos, faz as suas orações como se cochichasse com Zambi ou os Orixás, e sorrindo fala ou faz o que deve ser falado ou feito sem a menor pressa e sempre dentro de seu tempo e serenidade.

É dito que Vô Joaquim é um dos mais velhos, em relação a idade cronológica, Pretos Velhos que trabalham para a caridade nos Terreiros de Umbanda. Muitos acreditam que ele em sua vida terrena perdeu a conta de anos que passou encarnado, de tantos que foram.

Vovô Joaquim foi um negro escravizado lá pelo século XVII para o século XVIII. Pelas histórias contadas, era ele um negro forte, inteligente, que compreendia o que dizia os sons dos ventos, dos rios e das matas. E assim ele buscava respostas as suas dúvidas e falta de compreensão em algumas coisas que para ele não devia existir na terra oferecida pelo Pai Maior, Zambi, no qual ele se entregava em orações elevando sempre sua fé.

Joaquim, ainda moço, era visto por muitos da fazenda, na qual ele era escravizado, como o abençoado das matas e da Lua. Pois ele buscava sua serenidade no brilho da Lua, a Lua que ele chamava de "Penumbra de Zambi", assim como buscava entendimento nas matas para que assim fosse possível, através de ervas, raízes, frutos e sementes, fazer seus medicamentos, compressas, limpezas de corpo e espírito, macerando tudo que necessitava para que o resultado sempre fosse perfeito, assim como ele aprendeu com os negros mais velhos e que com perfeição faziam esse trabalho de caridade, tanto aos brancos, quanto aos negros da época.

Com o passar do tempo, Joaquim ficou bem conhecido por toda a região, sendo ele respeitado por brancos e negros, homens e mulheres, crianças e idosos, coronéis e escravos.

Já com um grande conhecimento adquirido, juntamente com sua luz própria e a força da natureza, principalmente das matas, da Lua e dos rios com suas águas límpidas, Vô Joaquim, por ordem dos Senhores de Escravos da região e de seu próprio senhor, um coronel cafeicultor muito exigente e bastante cruel, ordenou a ele que seguisse de fazenda em fazenda da região buscando curar os negros adoentados. E se caso o mal físico apresentado pelo negro não fosse possível ser tratado em tempo curto, ele, o próprio Joaquim, estaria responsável por terminar com o dito "problema", ceifando a vida do negro enfermo, e se não
fizesse iria ao tronco para ser açoitado até a morte.

Vô Joaquim ficou desesperado com a ordem dada pelo seu coronel. Ele nunca poderia tirar a vida de um semelhante. Não sabia o que fazer, clamava a "Senhora Lua" uma resposta, pedia a "Floresta Mãe" um caminho. Rezou, orou e chorou, e após momentos de intensos pensamentos desalinhados em sua mente, decidiu que não acataria as ordens dadas pelo famigerado coronel, e dos seus cúmplices no extermínio aos seus irmãos negros adoentados.

Já disposto a falar com o coronel a sua decisão, e já preparado para receber a pena que sofreria, entendendo que assim entregaria sua vida mas não limitaria a vida de um só ser, Joaquim observando o céu já anunciando a chegada das brilhantes estrelas que enfeitariam mais uma noite linda, olha firmemente para a sua companheira brilhante, a tão sublime Lua de Ogum e deixa suas lágrimas rolarem na face já cansada.

Por um instante escuta o som de um assobio intenso e agudo, no qual lhe chama bastante atenção. Seguindo o som, Vô Joaquim se entranha na mata. Os assobios se tornam mais intensos e cada vez mais próximos. E sem ele menos esperar sai de trás de um tronco de árvore um ser de aparência indígena, demonstrando serenidade, e seriedade intensa.

Vô Joaquim fica um pouco apreensivo, pois nunca tinha visto alguém com essas características pela região. Mas mesmo assim fintou firmemente os olhos do índio, que após abrir um ar de sorriso e logo tornando seu rosto mais sério que antes disse:

"Negro filho das matas e protegido pela Lua de meu irmão Ogum. Sua decisão de entregar-se ao destino sombrio das mãos pecaminosas da morte, é algo impensado e errôneo. Você Negro, filho das terras africanas, terras essas que fazem dos homens símbolos da coragem e da fé, não deve procurar apenas os caminhos impostos pelos seus senhores brancos. A resposta desse seu impasse virá de uma caridade que deverá prestar e da coragem que deverá demonstrar. Quando chegar o momento, tu Negro bondoso e caridoso, vai saber o que fazer. Agora retorne de onde viestes e se feche em oração a Oxalá e a Zambi, nosso Pai Maior."

E assim o índio desaparece adentrando nas matas, apenas iluminado pelos raios do luar que passavam pelas densas folhas das grandiosas árvores, sem que ao menos Vô Joaquim percebesse o caminho tomado por ele.

O velho Joaquim, retornando até a margem do rio em que passava horas em oração, sentou-se ao chão, levantou seu olhar para a deusa Lua, abriu os braços como que se quisesse abraçar toda aquela força e brilho emanada pela "penumbra de Zambi", e se voltou em orações, sem mais pensar na decisão que tinha tomado horas antes.
 
No dia seguinte, o Sol já raiava, e Vô Joaquim ainda se encontrava sentado a beira do rio, quando ouve o trote acelerado de um cavalo que trazia o feitor que aos gritos chamava pelo seu nome. Após uma breve conversa, Joaquim entende que o coronel cafeicultor o mandara buscar com urgência, pois a pequena sinhazinha, filha do coronel, se encontrava adoentada, acamada, sem forças e todos temiam pelo pior.

O Velho Joaquim sobe a garupa do cavalo do feitor, e partem para a casa grande, onde se encontrava a menina enferma. Ao chegar aos aposentos da menina, Joaquim se depara com um coronel desesperado, choroso e clamando pela vida de sua amada filha única. E essa se encontrava deitada, pálida e inerte.

O coronel chega ao negro e lamenta intensamente, pede em tom baixo
que ele salve a sua filha.

Vô Joaquim, com seu ar sereno, pede calma ao coronel. Ele se ajoelha ao lado da menina, fecha os olhos e faz suas orações. Nesse momento vem a sua mente a imagem do índio que lhe apareceu nas matas, que lhe diz: "Chegou o momento de mostrar caridade e coragem."

Nesse instante, num salto ímpeto, Joaquim se levanta olhando fixamente aos olhos do coronel, lhe dizendo:

"Meu senhor, infelizmente os males de sua pequena sinhazinha são extremos. Poderá ela lutar pela vida, mas isso demorará intensamente. Sendo assim, só tenho uma coisa a fazer, que será ceifar antecipadamente com a vida de sua menina, assim como me ordenou a fazer com a vida dos negros enfermos. E talvez como as mães e pais desses negros que terei que antecipar a morte, o senhor coronel deverá se conformar, pois estarei tão somente acatando suas ordens. Ordem essa de ser o mensageiro da fria e sombria morte."

O coronel ao ouvir isso se pôs de joelhos aos pés do velho negro, clamando por ajuda, pedindo perdão e dizendo que agora ele entendeu a dor de perder um ente querido, mesmo tendo a possibilidade de salvá-lo. E que Joaquim poderia peregrinar por entre as senzalas, rezando e fazendo suas benzeduras para salvar a todos os negros, independente do mal e do tempo que isso levasse.

Vovô Joaquim novamente se voltou a sinhazinha, se pôs em oração, fez algumas compressas com ervas e raízes que ele tinha consigo, e colocou no pequeno corpo da menina. Fechou os olhos e fez sua benzedura. Ao abrir os olhos viu a imagem do índio aos pés da cama da pequena enferma, que lhe deu um pequeno ar de sorriso. O índio abre os braços em frente a menina, e Joaquim ouve o assobio tão característico e conhecido para ele. O índio desaparece, e o negro com um sorriso sereno, da continuidade a suas orações, e poucas horas depois a pequena menina, já com um sorriso no rosto e um tom mais corado na
pele, abraça o velho Joaquim como se agradecesse pelo retorno a vida.

O coronel muito agradecido, passou a tratar os negros com mais respeito, atenção e dedicação. O velho negro Joaquim passou a viajar por entre senzalas e fazendas, com uma charrete e um cavalo que lhe foram dados pelo coronel, para salvar a vida de negros e brancos enfermos, independente de tempo e qual fosse o mal do corpo ou espírito.

Hoje Vô Joaquim é um dos Pretos Velhos mais queridos e respeitados da Religião de Umbanda. Com seu ar doce e sereno, um avô que todos desejariam de ter, ele com suas calças brancas arregaçadas, pés descalços, sua simplicidade e humildade, encanta a todos os filhos de Umbanda.

Podemos rotineiramente ver ele trabalhando ao lado de pés de ervas, como arruda ou alecrim. Está sempre com uma vela traçada nas cores preta e branca nas mãos, abençoando aos filhos que por ele procuram. Também acostumamos vermos ele trabalhando com velas na cor verde, que simboliza a cor do Pai das Matas, o Orixá Oxossi, na qual ele tem imensa devoção.

Esse Vovô amado não dispensa o seu cachimbo, composto com fumo e
algumas vezes com folhas secas de arruda e alecrim, para suas
cachimbadas leves, no qual solta sua fumaça no ar e fica admirando como se estudasse cada forma.

Saravá Vovô Joaquim da Pedreira que trabalha com Xango

Adorei as Almas!

Um comentário:

  1. Linda mensagem, ah! se todos prestassem atenção aos sinais de luz do universo... (Metamorfose Quântica)

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